tem um bicho no jardim
não tem
eu inventei
o nome do bicho,
Disfarce
morreu moço
viveu cinco
talvez dois
um minuto
o tempo de caírem meus olhos
do alto do mato escuro
ao chão de madeira da sala
onde nunca ninguém vem
de cá invento os bichos
meus olhos decidem
quando vamos morrer

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foragida

28maio18

3

não tem cabimento. escorre por onde passa, deixa vestígio — um rastro de sua passagem fica, como a linha molhada de uma lesma. não pode escapar da maldição de existir descabida. não escapa de escapar-se. quando se sabe, já vai longe, derramada para fora do contorno-corpo. e embora antecipe a chegada da desmesura acompanhada de seus dois filhos, Desconforto e Culpa, não segura. ela sabe da falta de cabimento e, também, que não tem cura. é seu próprio pressentimento quando ele se confirma. prevê o descontrole e cumpre feito sina. lá vai ela mesma para fora de ela mesma. vai embora, mas fica aqui. e de cá se despede de um tanto de si.


16fev18

chagall

não fosse patético, não fosse vergonha dizer o que se sente, não fosse também um tanto triste ainda sentir tanto, não fosse a insônia da noite passada feita de angústia pelo dia de hoje, não fossem os estragos da rotina, sua raiva, minha ira, não fosse eu, sozinha, a mesma no mesmo sofá de um ano atrás, não fosse o tempo, não fosse o fim — eu poderia dizer tanto. (mas talvez não fosse preciso. porque, não fosse tudo, cá estaríamos os dois, e meu corpo encontraria o seu num abraço mudo.)


dezembro

25jan18

há três anos nevava, e eu fumava na escada de incêndio do prédio em nova york, observada pelo meu gato Charlie que, do lado de dentro de casa, fazia interrogações com o pescoço e tocava com a patinha o vidro, delicadamente, como se tentasse pegar distraída a solidez daquele material que nunca entendeu, bem como a água.

há três anos nevava e eu estava fumando na escada de incêndio observada por Charlie e sob camadas de meias térmicas e aquele casaco japonês que eu chamava de destruidor de sete looks e que eu parecia ter vestido em outubro para tirar só em abril. e ainda era 1º de dezembro. neste dia, há três anos, nevava. vez por outra sinto o mesmo cheiro daquela hora e quase posso estar lá, na escada de incêndio. desde aquele dia, tem vezes eu penso, nunca parou de nevar.

te escrevi cartas
bilhetes
epopeias
haicais
te desenhei
pequenininho
de manhã
no escuro
no chão
em silêncio
em prantos
molhei a página
borrei o nanquim
sujei de sangue
lágrima
ranho
tristeza
saudade
você nunca recebeu
nada
carta alguma
bilhete nenhum
rasguei um a um
não sou de escândalo
choro minúscula
dor é prato pra um


pele do tempo

06dez17

IMG_4170

levou mais de dez horas para nascer. talvez não quisesse tanto, daí a demora. talvez soubesse, desde antes, desde o útero da mãe, que seria um existir inadequado. não um grande problema ou um estorvo, mas um desencaixe, peça solta na máquina do real, uma estranheza, uma alegria triste feito a de chaplin. uma giulietta masina sem filme nem fellini. inútil e relutante, fato é que nasceu. às nove e quarenta e seis da manhã, segundo constam dos registros e da memória da mãe, que jura ter olhado para o relógio da sala de parto no exato momento em que expeliu, enfim, a inapta filha, depois de dez horas de angústia e força que, hoje se sabe, poderiam ter sido poupadas houvesse em 1983 meio eficaz de prever a sorte de criatura desajeitada feito aquela.

a pobre, como recompensasse a mãe, nasceu sem alarde — chorou de susto, coisa de segundos, e pronto calou-se. de modo que até a primeira infância poderia ter passado despercebida, não fosse o gosto peculiar pela pele derretida dos braços da avó. passava horas, tardes, massageando aquelas pelancas, enfiada no colo da velha que, do sofá, assistia sempre ao mesmo telejornal sensacionalista, cujo apresentador inflamado pontuava notícias com golpes de cacetete sobre a bancada do cenário — um gesto de vanguarda à época e que seria repetido à exaustão décadas depois por âncoras mais exibicionistas do que inflamados, como aquele que tanto divertia a avó.

embora hipnotizada pelo apresentador passional e seu cacetete, ela levantava um tanto o braço para a neta, estranha como ela, meter a mão entre suas pelancas que, como as horas, escorriam aos poucos de seu corpo antigo. o movimento do braço da avó era discretíssimo, jamais anunciado, mas punha o coração da inadequada herdeira, não menos passional que o homem da TV, em disparada insandecida — jamais anunciada, discretíssima. executavam sempre que podiam, a velha e a pequena, aquela coreografia silenciosa, um pas-de-deux de sofá sem ensaios e, ainda assim, perfeito, irretocável. houvesse plateia, gritariam “Bravo!” e jogariam flores e teríamos de voltar ao palco seguidas vezes, para curvar o corpo em reverência aos longos aplausos.

aos outros da família, porém, aquele espetáculo sequer era digno de nota. o hábito estranho da caçula que se metia no sovaco da avó até rendeu um ou outro comentário curto e jocoso entre as tias, nos almoços de domingo. e só. nunca chegou a ser um escândalo de família, nem assunto de boca pequena na pia da cozinha. para a desajeitada e a avó, todavia, o encontro das mãos minúsculas de uma, feitas de células recém-fabricadas, com a pele frouxa dos braços sexagenários da outra, tornou-se um pequeno prazer. puro, sem retórica. tanto que nunca falaram sobre o assunto, as duas estranhas do clã. no máximo, certa feita, quando caminhavam juntas para o sofá, trocaram um rápido sorriso de cúmplices de um crime, o do conforto secreto, mudo e intransferível. sem mais.

quando aquela miniatura inadequada a que chamavam filha, neta, sobrinha ou caçula, a depender do parentesco, estava prestes a cumprir 7 anos, viu da porta do quarto a mãe atender ao telefone num canto da sala. o tom de sua voz era grave, cumprimentou a tia secamente e, em seguida, lançou-se ao pranto desesperado dos que perdem as mães. a minúscula neta voltou ao quarto e não fez pergunta: tratou de ajeitar a mochila para a viagem de 300 quilômetros rumo ao velório da avó, que, pelo que havia entendido, deixara de existir naquele mesmo dia e, pois, levaria consigo, para debaixo de sete palmos de terra, a pele mansa de seus braços.

nada disseram às crianças, tampouco à neta devota das pelancas da avó durante a viagem de quatro horas até a capela do velório, localizada estrategicamente em frente ao cemitério da cidade. não se pronunciou a palavra morte, nada foi dito sobre a passagem do tempo, sobre corpos que nascem relutantes e escorrem com as horas até desaparecer dos sofás nos almoços de domingo. eram mesmo de falar pouco, os pais. mas a mãe havia chorado os 300 quilômetros até a cidade da avó mais o percurso até a capela em frente ao cemitério, e isso bastava para explicar o ocorrido.

quando chegou ao funeral e se deparou com a avó deitada no caixão, pois, a inapta neta escolheu um canto e lá ficou a desenhar linhas de lágrimas até o pesoço, sem dizer palavra. a tia levou doce, o padrinho ofereceu sorvete, o pai ameaçou bater, e a desajeitada, desculpando-se pelo silêncio, falou uma só vez, o que foi suficiente para que lhe deixassem quieta, talvez por não terem entendido sua única frase naquele dia: “As palavras que eu tinha ficaram líquidas. Virou tudo lágrima”.

e do canto da capela só saiu quando surgiram dois homens uniformizados, cuja ocupação era (talvez ainda seja) tão somente a de fechar caixões. tarefa que cumpriam (talvez ainda a cumpram) sem volteios ou deslizes passionais. a orfã das ternuras amolecidas da avó desconhecia a profissão dos homens de uniforme e, ao saber que haviam de fechar para sempre a avó na embalagem de madeira e, absurdo maior!, que levariam as pelancas de seus braços para o subsolo do mundo, correu para impedir o disparate. de imediato gritou um “não!”. seco, áspero, de textura desconhecida pelos ouvidos da família. então correu e pôs-se ao lado da falecida, a segurar-lhe firme o braço direito, como se esperasse que a avó o levantasse pela última vez, oferecendo a pele solta da carne pela ternura do tempo. “não!”, repetiu em novo grito seco.

a mãe desolada, a tia-avó soluçava, e a inadequada, arrancada do salão e carregada por dois homens, bem como o caixão da avó a seu lado, até o cemitério na rua em frente àquela capela destinada ao absurdo dos velórios. decidiram não levar a menina até o túmulo. para evitar novas cenas dramáticas, comentaram parentes distantes. de volta à  casa, a neta inapta, agora sem o conforto das pelancas da avó, mudou-se, livros, cadernos e canetas, para debaixo da cama. lá ficou um dia e uma noite inteiras. saiu sob ameaças de um tamanco de madeira da mãe e de um cinto de couro do pai. porque era preciso comer e parar de frescura e voltar à escola e cumprir os deveres e, ora, seguir a vida e assistir às notícias na tv — nunca mais ao lado da ternura esculpida pelo tempo nos braços da avó.


diabelo

28nov17

tem dia eu tento muito forte
e dói parece até mais
as bananeiras
o verde das bananeiras
os gatos escorrendo pelas pernas
o céu ensandecido de azul
o diabo, amigos,
o diabo é a beleza
e tem dia eu tento muito
até mais que ontem
que nem quando colhia café
firme para não me enamorar pelos galhos
para não olhar tanto cada grão
amarelo quase vermelho
verde
machucado de broca
liso e luz
concentração
eu tento muito forte
(tem dia mais que ontem)
lançar os grãos no cesto
sem reparar a vida
mas dói parece até mais
esse esforço para não distrair