te escrevi cartas
bilhetes
epopeias
haicais
te desenhei
pequenininho
de manhã
no escuro
no chão
em silêncio
em prantos
molhei a página
borrei o nanquim
sujei de sangue
lágrima
ranho
tristeza
saudade
você nunca recebeu
nada
carta alguma
bilhete nenhum
rasguei um a um
não sou de escândalo
choro minúscula
dor é prato pra um

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pele do tempo

06dez17

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levou mais de dez horas para nascer. talvez não quisesse tanto, daí a demora. talvez soubesse, desde antes, desde o útero da mãe, que seria um existir inadequado. não um grande problema ou um estorvo, mas um desencaixe, peça solta na máquina do real, uma estranheza, uma alegria triste feito a de chaplin. uma giulietta masina sem filme nem fellini. inútil e relutante, fato é que nasceu. às nove e quarenta e seis da manhã, segundo constam dos registros e da memória da mãe, que jura ter olhado para o relógio da sala de parto no exato momento em que expeliu, enfim, a inapta filha, depois de dez horas de angústia e força que, hoje se sabe, poderiam ter sido poupadas houvesse em 1983 meio eficaz de prever a sorte de criatura desajeitada feito aquela.

a pobre, como recompensasse a mãe, nasceu sem alarde — chorou de susto, coisa de segundos, e pronto calou-se. de modo que até a primeira infância poderia ter passado despercebida, não fosse o gosto peculiar pela pele derretida dos braços da avó. passava horas, tardes, massageando aquelas pelancas, enfiada no colo da velha que, do sofá, assistia sempre ao mesmo telejornal sensacionalista, cujo apresentador inflamado pontuava notícias com golpes de cacetete sobre a bancada do cenário — um gesto de vanguarda à época e que seria repetido à exaustão décadas depois por âncoras mais exibicionistas do que inflamados, como aquele que tanto divertia a avó.

embora hipnotizada pelo apresentador passional e seu cacetete, ela levantava um tanto o braço para a neta, estranha como ela, meter a mão entre suas pelancas que, como as horas, escorriam aos poucos de seu corpo antigo. o movimento do braço da avó era discretíssimo, jamais anunciado, mas punha o coração da inadequada herdeira, não menos passional que o homem da TV, em disparada insandecida — jamais anunciada, discretíssima. executavam sempre que podiam, a velha e a pequena, aquela coreografia silenciosa, um pas-de-deux de sofá sem ensaios e, ainda assim, perfeito, irretocável. houvesse plateia, gritariam “Bravo!” e jogariam flores e teríamos de voltar ao palco seguidas vezes, para curvar o corpo em reverência aos longos aplausos.

aos outros da família, porém, aquele espetáculo sequer era digno de nota. o hábito estranho da caçula que se metia no sovaco da avó até rendeu um ou outro comentário curto e jocoso entre as tias, nos almoços de domingo. e só. nunca chegou a ser um escândalo de família, nem assunto de boca pequena na pia da cozinha. para a desajeitada e a avó, todavia, o encontro das mãos minúsculas de uma, feitas de células recém-fabricadas, com a pele frouxa dos braços sexagenários da outra, tornou-se um pequeno prazer. puro, sem retórica. tanto que nunca falaram sobre o assunto, as duas estranhas do clã. no máximo, certa feita, quando caminhavam juntas para o sofá, trocaram um rápido sorriso de cúmplices de um crime, o do conforto secreto, mudo e intransferível. sem mais.

quando aquela miniatura inadequada a que chamavam filha, neta, sobrinha ou caçula, a depender do parentesco, estava prestes a cumprir 7 anos, viu da porta do quarto a mãe atender ao telefone num canto da sala. o tom de sua voz era grave, cumprimentou a tia secamente e, em seguida, lançou-se ao pranto desesperado dos que perdem as mães. a minúscula neta voltou ao quarto e não fez pergunta: tratou de ajeitar a mochila para a viagem de 300 quilômetros rumo ao velório da avó, que, pelo que havia entendido, deixara de existir naquele mesmo dia e, pois, levaria consigo, para debaixo de sete palmos de terra, a pele mansa de seus braços.

nada disseram às crianças, tampouco à neta devota das pelancas da avó durante a viagem de quatro horas até a capela do velório, localizada estrategicamente em frente ao cemitério da cidade. não se pronunciou a palavra morte, nada foi dito sobre a passagem do tempo, sobre corpos que nascem relutantes e escorrem com as horas até desaparecer dos sofás nos almoços de domingo. eram mesmo de falar pouco, os pais. mas a mãe havia chorado os 300 quilômetros até a cidade da avó mais o percurso até a capela em frente ao cemitério, e isso bastava para explicar o ocorrido.

quando chegou ao funeral e se deparou com a avó deitada no caixão, pois, a inapta neta escolheu um canto e lá ficou a desenhar linhas de lágrimas até o pesoço, sem dizer palavra. a tia levou doce, o padrinho ofereceu sorvete, o pai ameaçou bater, e a desajeitada, desculpando-se pelo silêncio, falou uma só vez, o que foi suficiente para que lhe deixassem quieta, talvez por não terem entendido sua única frase naquele dia: “As palavras que eu tinha ficaram líquidas. Virou tudo lágrima”.

e do canto da capela só saiu quando surgiram dois homens uniformizados, cuja ocupação era (talvez ainda seja) tão somente a de fechar caixões. tarefa que cumpriam (talvez ainda a cumpram) sem volteios ou deslizes passionais. a orfã das ternuras amolecidas da avó desconhecia a profissão dos homens de uniforme e, ao saber que haviam de fechar para sempre a avó na embalagem de madeira e, absurdo maior!, que levariam as pelancas de seus braços para o subsolo do mundo, correu para impedir o disparate. de imediato gritou um “não!”. seco, áspero, de textura desconhecida pelos ouvidos da família. então correu e pôs-se ao lado da falecida, a segurar-lhe firme o braço direito, como se esperasse que a avó o levantasse pela última vez, oferecendo a pele solta da carne pela ternura do tempo. “não!”, repetiu em novo grito seco.

a mãe desolada, a tia-avó soluçava, e a inadequada, arrancada do salão e carregada por dois homens, bem como o caixão da avó a seu lado, até o cemitério na rua em frente àquela capela destinada ao absurdo dos velórios. decidiram não levar a menina até o túmulo. para evitar novas cenas dramáticas, comentaram parentes distantes. de volta à  casa, a neta inapta, agora sem o conforto das pelancas da avó, mudou-se, livros, cadernos e canetas, para debaixo da cama. lá ficou um dia e uma noite inteiras. saiu sob ameaças de um tamanco de madeira da mãe e de um cinto de couro do pai. porque era preciso comer e parar de frescura e voltar à escola e cumprir os deveres e, ora, seguir a vida e assistir às notícias na tv — nunca mais ao lado da ternura esculpida pelo tempo nos braços da avó.


diabelo

28nov17

tem dia eu tento muito forte
e dói parece até mais
as bananeiras
o verde das bananeiras
os gatos escorrendo pelas pernas
o céu ensandecido de azul
o diabo, amigos,
o diabo é a beleza
e tem dia eu tento muito
até mais que ontem
que nem quando colhia café
firme para não me enamorar pelos galhos
para não olhar tanto cada grão
amarelo quase vermelho
verde
machucado de broca
liso e luz
concentração
eu tento muito forte
(tem dia mais que ontem)
lançar os grãos no cesto
sem reparar a vida
mas dói parece até mais
esse esforço para não distrair


parabelo

18nov17

não posso desenhar.
ler, já não consigo.
escrever, quem dera.
só posso música e dança.
de modo que sou salva,
dia sim, dia também,
por bocas, dedos, braços, quadris e pés
que não são meus
pianos, violões, baixos e flautas
que nunca toquei.
sou salva pela beleza
daquilo que não sei.


enquanto

19jun17

(texto de 22 de março de 2007)

baltar

Desde aquele dia, eu me mudei para uma sala de espera. Não que tenha sido voluntário: sem mais nem menos, eu moro aqui. Estou esperando alguém para entregar um bilhetinho feito namorasse. O bom é que tem esses livros todos e eu posso escrever o quanto quiser e, às vezes, até esquecer que estou esperando. Posso enfeitar tudo para a chegada: cinco nuvens no alto da parede – nuvens de céu azul-doído -, aquela poesia no teto – “what if suddenly nothing else moves?” – e outras duas novas para a parede lateral.

É raro, mas eu saio. Visito uma exposição, vou ao cinema e anoto aquele vídeo-arte, a fala do Woody Allen que eu mais gosto (“Não engordo porque minha ansiedade chega a ser aeróbica”) pra te contar depois. Não deixa de ser enfeitar-tudo, não? É um hábito, eu sei. Ajuda a passar o tempo enquanto se espera – é deslembrar que estou esperando.

E tem amigos que vêm me visitar. Não muitos, porque eu quase prefiro ficar em silêncio com os discos novos de jazz. Mas, vez ou outra, eu tenho saudade e penso em reunir todo mundo aqui. Não seria uma espera, eu sei, e é bem por isso que eu não faço reuniões. Não, não faço. Um amigo ou outro aparece, sorri com as nuvens, tenta ler a letra do teto e vai embora três músicas depois. Eu gosto deles, mas sempre fui das reticências e, embora fique cheia de gargalhadas, eu ainda lembro que estou esperando e é melhor deixar a visita ir antes que ela perceba tudo e saiba que aquilo, aquele jazz lindo tocando, aquela poesia, aquele amontoado de delicadezas não são pra ela. Mas os amigos vêm. E eu gosto que venham. Contanto que batam na porta antes e não se demorem demais.

Minha sala de espera não tem música de elevador. Eu odeio elevadores. E odeio azulejos com estampas de flores e bules, cortinas com aqueles babados e toda tentativa de chamar casa o que eu sei que não é. Detesto que diminuam o volume do som, porque eu não quero ouvir o barulho da espera, barulho da rua que anda mais do que aqui dentro. E, embora eu espere, eu estou um pouco correndo. Sim, porque encher tudo de enfeites não é fácil e eu não quero esquecer de nada. Até aquela história de estudar música no conservatório quando eu tinha 8 eu quero ter pra te mostrar. Não, não se pode esquecer a neblina.

Tem dia eu penso que espero menos a chegada que a hora de escrever o bilhetinho. É que eu tenho ânsia de poder te escrever lindo, você virando a cabeça pra mim, com os olhos brilhantes do encontro, contar a fala do Woody Allen, colocar meu disco novo de jazz no som e entender que está tudo calmo, que você chegou e que já pode trazer todos os seus enfeites pra minha sala de não esperar nunca mais.


a lixeira

29maio17
leonilson
num caderno de criança do colégio, fiz uma anotação em letra minúsculas. não era lição ou lembrete. era algo que eu, por recato e lisura, jamais faria. era uma anotação sem serventia de lição, passível de castigo, pensava eu. tanto que a fiz no cantinho da penúltima página, sem alarde, sem borrar. puro esmero e prudência. para que a professora não visse, para que o irmão jamais descobrisse, para que eu mesma talvez não pudesse enxergar. uma nota cuja função era a de esquecer.

(e se eles soubessem da verdade?  para onde eu iria? poderia levar a enciclopédia?)

quando já estávamos mais crescidos e podíamos usar os cadernos grandes, caminhava de volta da escola. da esquina do prédio, podia ver a lixeira na calçada. reparei que não tinha as habituais sacolas plásticas de supermercado. estava, sim, completa com nossas brochuras da infância. a mãe decidira jogar fora. faltava espaço, ela explicou ante meu lamento – jamais pranto; não era permitido pranto naqueles tempos. almocei calada, organizei a cozinha, a louça limpa e seca no armário, os cadernos no pensamento. fui em seguida me deitar debaixo da cama, o quartel de estratégias silenciosas. mais uma vez, não contaria a ninguém o plano. era, em verdade, muito simples: naquela tarde, diria à mãe que precisava ir ao bosque, voltaria rápido, coisa de ver uma árvore para trabalho da escola.

saí de casa no meio do dia. confirmei a rua vazia antes de firmar as mãos na lixeira de metal e iniciar a escalada com a ligeireza de quem há muito frequentava o abacateiro do quarteirão de cima. coube justa dentro dela, o corpo miúdo quase camuflado entre os papéis, a touca do moletom vestida, senhora de minha aventura. acomodei-me entre livros de geografia e gramática, um sem fim de folhas de papel almaço. comecei por separar os materiais dos três irmãos. empilhei os meus num canto. revi rapidamente meus trabalhos de história, redações de português e os cadernos de desenho – estes, todos geométricos e feitos com no máximo três cores (sempre fui rigorosa nas lições de educação artística). cruzei com meus desastres de matemática, refiz com os dedos a imensa letra redonda dos trabalhos de português e, enfim, cheguei ao caderno de capa vermelha. era aquele, tinha certeza. como os demais, não tinha rasura, nem cantos vincados. não fosse pelo volume das páginas preenchidas, seria tomado como novo. passei a folhear, ora apressada, ora contida. equilibrando-me, dentro da lixeira, aos 11, entre a euforia e o comedimento. na penúltima página, o coração já em completo desalinho, confirmei – seguiam lá, miudinhas, as palavras no rodapé: “eu não era pra ser gente. eu era pra ser inventada”. li apenas uma vez, sem repetir, temendo ficar doida no encalço. fechei o caderno, devolvi-o sob os escombros da instrução dos três irmãos. não o trouxe comigo – ora me arrependo, ora me alivio. por descuido, cortei a barriga no metal da lixeira quando descia de dentro dela. um pequeno talho. vez ou outra, ainda vejo a cicatriz do corte, minúscula como a caligrafia daquela página. até hoje sonho ser um invento. um bosque. uma engenhoca. ou o motor de uma caixinha de música, que ninguém jamais toca, por inútil que é.

 


automat-hopper

a moça mais triste do shopping chupa sorvete de chocolate. não chora. está concentrada no sorvete, em caminhar como todos os outros e manter a honra de não deixar pingar gota alguma do doce no chão. a moça mais triste do shopping não chora, mas poderia. comedida e silenciosa, ela poderia se deitar no chão, ajeitar o vestido, acomodar a coluna ao piso e, como um bailarino já aquecido e alongado, iniciar sua função. a moça mais triste do shopping talvez mirasse o teto fixamente até o desfoque – um método que, faça-se saber, já é reconhecido para fins de evocar memórias quando não se está de posse de fotografias ou de outros objetos carregados de tristeza.

sem emitir som que não o da queda das lágrimas (este audível apenas para formigas e outros insetinhos de chão), a moça mais triste do shopping assim iniciaria seu pranto. jamais como as crianças que choram de birra, esperneando-se e esfregando as mangas das camisetinhas no nariz. a moça mais triste do shopping, não. faria-o sem escândalo. sem fúria ou palavra. deitada, deixaria caírem lágrimas gordas que escorreriam até o pescoço ou até que um segurança viesse para lhe dizer que não, não se podia deitar no chão do shopping e chorar. nas regras do shopping, só se pode chorar no chão em caso de birra para reclamar este ou aquele presente, choro que, por fim, guarda potencial lucro ou ainda a possibilidade de encorajar outras crianças a terem acessos de birra, formando, com sorte, uma rebelião ranhenta a ser devidamente silenciada com acordos, cargos do PMDB ou, oxalá, presentes.
quanto ao choro comedido, não. este não está nas normas do shopping. e haveria também o problema do sorvete que, durante o choro, acabaria por se desfazer e sujar o chão, não bastassem as lágrimas a molhar o piso. a moça mais triste do shopping, portanto, não chora. chupa picolé de chocolate e concentra-se em manter a honra de não derramar, jamais, gota de sorvete ou lágrima alguma no chão.