ceninha
- Que foi?
- Nada, por quê?
- É que às vezes você me olha diferente.
- Olho?
- Olha.
- Me mostra.
- O quê?
- Como eu olho diferente.
(então todas as palavras saíram correndo. em disparada.
e a história ficou sem final.
só vendo.)
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da árvore de nomes

acordei com a família na garganta. o pai disse que não se lembra do último dia em que almoçou. não, ele lembra: foi no domingo. hoje é quarta-feira. ele fez declarações desesperadas de afeto. aquele homem imenso, de bigode e um metro e noventa de altura, disse que me ama, que vai pegar estrada e esquecer da família, como se esquece do dia em que almoçou. não, ele lembra: foi no domingo. e hoje é quarta-feira.
ele sempre aparecia na porta do quarto pra dizer meu nome inteiro. o nome duplo que ele inventou. porque ele gosta de nomes duplos. acha um luxo alguém ter dois nomes de chamar. e acha bonito que tenham letras difíceis. o nome dele é bem mais simples (ele diz que é assim que os burricos devem ser chamados: de nomes simples, para que não se atrapalhem no pasto, para que nunca se esqueçam do próprio nome, como se esquecem dos dias em que almoçam).
agora ele me diz algo sobre árvores frondosas. para que eu me encoste. e descanse. aprendeu isso com a mãe, uma italiana de mão boa para a cozinha e o plantio. ele mesmo não poderá se encostar na tal árvore que imagina desde criança, desde as histórias da mãe. vai pegar estrada e esquecer da família, dos dias em que almoça. do próprio nome.
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amaranta
se não me engano, são 32 anos de chuva. corremos para fechar as janelas assim que nascemos. éramos o irmão do meio e a caçula cuidando das goteiras, das frestas, da madeira que empenava com a umidade. quando já se contavam 20 anos de chuva, deixamos a casa. os outros da família, os que têm a pele com fissuras de água, estranham nossas pequenas voltas e, às vezes, te vejo e vejo a mim a observar as mesmas frestas, as mesmas poças nos chãos dos quartos. ambos contemos o ímpeto de cuidar de toda aquela água e choramos escondidos. quando já se contavam 20 anos de chuva, nós deixamos a casa.
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dans mon île
(porque não entendo nada de vinganças,
eu disse não.
que talvez vá se revelar um erro,
como quase todo o sim que eu disse a você.)
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longe
tinha pudores de dizer, mas como vivia a se testar, como era corajosa feito só (só, de sozinha), iria confessar: tinha se enganado. pensou em guardar-se dentro da mala e acordar já no meio do mar, como numa daquelas mensagens em garrafas que tanto sonhava encontrar. tinha pudores de dizer que tinha se enganado, que, para descansar os olhos, ela talvez devesse ter ido ao mar. tinha amor por ele, desejos de estar dentro, de correr até a margem, de respeitar sua braveza de espuma branca, de vê-lo lamber as costas da areia e, dedicado, voltar.
tinha pudores de não cumprir essa exigência de felicidade dos que viajam para longe. seu lugar preferido era o sumiço.
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won’t you please?
ele me mandou “be my baby”. derreti: desejos de noite em claro, de eu-em-suspenso, de esperar o telefone tocar com ternura, de sair dançando no meio da cozinha, no meio da tarde, no meio de nada, de tudo o que eu inventei, cher inconnu. dança comigo?
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novembro
je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. je suis en vacances. oui, on y va. je suis en vacances.
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algumas moças
hoje acordei com isso: algumas moças prestam atenção em nada. algumas moças que não têm lugar no mundo, que precisam de um tanto de mar, um tanto de céu, algumas árvores e a corrida desenfreada dos insetos.
algumas moças que saem de madrugada em paris com a máquina fotográfica e sem telefone. algumas moças que esperam Pasárgada – o único endereço possível, porque não existe. algumas moças que nunca entendem mapas, que seguem pela anhanguera em risadas exageradas de emoção por nada, porque inventaram até mesmo a risada. algumas moças prestam atenção em nada. só no que inventam. essas que sabem a melhor bobagem da última viagem, mas não sabem onde foi a última viagem.
essas moças que perdem o sono e precisam de um casaco novo às 18h26 de não-se-sabe-onde. porque algumas moças têm sustos no banho, essa memória ingrata de viver no real querendo o fantástico. algumas moças não prestam atenção na saída do metrô e disfarçam a meia-volta. algumas moças desligam o chuveiro para ter certeza se era mesmo lágrima – e não tem ninguém em casa para se certificar disso-ou-daquilo. a solidão, esse jogo de real-fantástico. algumas moças estão com medo de voltar para casa e de não ter ninguém lá. algumas moças sempre estiveram sozinhas e inventaram tudo, até você. algumas moças, como eu, são inventadas.
*
(uma vez eu li que alguns caras prestam atenção em poças d’água. achei bonito. de anotar no caderno de acasos-textos. esses caras, no entanto, não existem. como essas moças. como eu.)
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