vestir meias felpudas. (ou meias calças, que garantem boa proteção.)
sem demora, deitar no chão (de preferência, tacos de madeira) e iniciar o movimento de pernas e braços mantendo sempre alguma parte do corpo em contato com o chão. não ficar de pé. é permitido girar, fazer ondulações com o tronco evocando minhocas e outras formas malemolentes. repetir movimentos sem fazer questionamentos acerca do patético.


munch_voice_3

Eu secretamente apostei corrida com uma moça na rua. Não, não foi secretamente. Eu percebi que ela apertou o passo pra eu não ultrapassar. Eu entrei naquele modo marcha olímpica e até lancei um olharzinho desafiador. Ela me respondeu apertando mais o passo e os dentes. Era uma corrida silenciosa, sem juiz, e a vitória seria só confirmada por evidências claras, claríssimas. Ou seja, quem chegasse antes à esquina. Ela estava carregando um livro e tinha o cabelo meio acobreado de sol. Nisso, éramos parecidas. Eu também tinha um livro e o cabelo alaranjado (mas eu ainda acho que, no meu caso, é o problema do encanamento enferrujado, que deixa a água enferrujada e assim sucessivamente). E estávamos as duas apostando aquela corridinha sem público e desesperada. Ela me ultrapassou (mas muito rapidamente), e eu percebi que só havia uma coisa a fazer. Soltei a bolsa e o livro no chão e corri enlouquecidamente até a esquina. Ela nem tentou me alcançar. Quando chegou lá, fingiu que não estava na disputa, passou pelo meu sorrisinho de eu-sabia-que-você-não-ganhava e seguiu andando pra disfarçar a derrota.

 

 


one after 909

30mar11

os pés, estes dois aqui, fizeram ana dançar. e ir para cama mais tarde.
estes pés têm insônia.


de dirigir para casa gritando alguma letra do velvet no carro. oh! sweet nuthin’.

de as decisões serem a do melhor disco, do melhor pôster pra parede do quarto.

de alguém passar às dez, de irmos para aquele mesmo bar, de dançarmos algum rock’n roll sem hora. de alguém fechar negócio para um passo (de dança) mais ousado no canto da pista. daquelas paredes de madeira do bar dos anos 70. das mesmas ruas, de o carro dirigir sozinho para casa, gritando alguma letra do syd barrett nos pneus. de não lembrar na manhã seguinte, de lembrar na manhã seguinte. daquela esquina escura perto do vale no meio da madrugada.

de ir à locadora na principal avenida, de sentar no chão da locadora por horas com dois filmes na mão e grana para um só. afinal, bergman de novo. de estar só nas escolhas, de as escolhas estarem sozinhas diante de mim. “vai ‘cenas de um casamento’ de novo, moço.” e o olhar compadecido do cara da locadora. “você é aquela cliente com nome de atriz, certo?” sim, eu mesma. de novo.

oh! sweet nuthin’
you know she ain’t got nothing at all

de o lago, de rock’n roll de madrugada, de arrigo barnabé, de chorar no meio de uma festa e recomeçar a festa. de a principal avenida vazia de madrugada, daquelas luzes do centro da cidade. de pedir para o mundo parar de girar, de quando a rotação era movida a vodka e cigarros. de telefonar de manhã para o balanço da noite anterior. de decidir tomar um suco, de óculos escuros na padaria e um tanto de rock ainda nos pés. de dirigir pela cidade à procura de nada, gritando com amigos dentro do carro. oh! sweet nuthin’.

 

 

 


já tem dias que ensaio dizer alguma coisa. e essa página em branco se impõe. esnobe, branquela, longilínea. fico prometendo, com ares de ameaça, que irei sujá-la com letrinhas. ela não se acanha, impõe-se de novo. já me conhece o bastante para saber que eu vou achar tudo pouco, que o querer em mim é tanto que é quase uma fuga, que o desejo de falar tudo se transforma num silêncio branco e longilíneo, o conforto das páginas vazias.

 


amor

10fev11

 

o mar lambe as costas da areia.
e volta.

 

 


antes da queda

10fev11

ninguém havia respondido. disseram que era decisão dela. e só dela. (s. disse que ela era sozinha no mundo. deve ser isso.) devia decidir sozinha. era uma mulher com sombra de duas cabeças. e nada nelas era contradição. se assim fosse, teria respostas.  mas não tinha. e a decisão era só dela, da moça na janela.


em silêncio

10fev11

andava sem palavras. tinha escondido todas num pote.


meu bem

02fev11

que você estivesse à distância de um braço. que ela pudesse enfiar a mão no seu cabelo no meio da noite. que você acordasse em tom de birra, como quem desmente o relógio. que ela pudesse ouvir sua risada agora, sua risada de deixar amigos boquiabertos. sua risada, tão sua. seu cabelo, tão seu. sua birra de manhã, tão sua.
e ela, deitada à distância de um braço, tentaria te convencer a ficar mais um pouco: o corpo é natural da cama.
meu bem, meu bem.
aprendeu com você o vocativo mais lindo, a ternura mais delicada, essa de dizer meu bem. essa de esticar o braço e enfiar a mão pelo seu cabelo, percorrê-lo como a uma trilha. (som de trem, de passarinhos. um sino distante.)
deitar-se para beijar seus olhos míopes, seu jeito de ver o mundo a oito graus de distância. oito graus de desfoque. seu olhar editado, tão seu. sua risada, tão sua.  sua menina, tão sua. a um braço de distância de toda essa ternura.


líquida

31jan11

pediu que as palavras fizessem fila. elas corriam feito crianças na hora do recreio. pediu que tentassem se organizar em frases. que pulassem um pouco menos, que pedissem um pouco menos. que, afinal, um texto não era assim tão difícil. mas havia o mundo, e todas as exigências por coerência, as estatísticas e o modo de usar. ela mal sabia o que dizer.
sentada sozinha, via as palavras correndo no meio da tarde.




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